terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

E a Inocência?


O dia já havia sido estressante por demais, até porque, em minhas épocas de recenseador qualquer dia era regado a boas doses de estresse. Final de tarde, após várias subidas pelas ladeiras do bairro do Alto Branco, tudo o que queria era chegar em casa. Mal sabia eu que ainda havia uma pedra no meio no caminho, ou melhor, uma pedrinha “meiga” e de olhos azuis.

Dirigindo-me para casa, vejo ao longe uma jovem mulher catando lixo com um garotinho (provavelmente seu filho). Uma criança muito bonita, de olhos grandes e azuis, aparentava ter entre seis e oito anos, não mais do que isso.

Ao me aproximar um pouco mais, percebo que aquela criancinha (tão meiga e encantadora) ensaia acenos tímidos em minha direção. Era comigo mesmo! Nossa, depois de um dia tão estressante, uma criança inocente acenando para mim! Ainda existe bondade no mundo! O que eu fiz? Retribui o aceno! Não podia fazer uma desfeita àquele menininho tão educado.

Continuo a caminhar e o jovem garoto permanece acenando. Os grandes olhos azuis não me deixaram perceber que os lábios do menino, embora ensaiassem um sorriso, permaneciam cerrados. E, ao passar lado a lado pela criança, que ainda acenava (vale lembrar que eu também acenava ¬¬), ele, sem nenhuma cerimônia ou algo do tipo, inclina a cabeça em direção aos meus pés e cospe todo o vômito que guardava na boca muito provavelmente desde que começou a acenar.

Como sempre tive certo “reflexo” (acho que é esse o termo usado) consegui rapidamente me esquivar e evitar que toda minha calça recebesse aquele jato de sobras alimentícias mal-digeridas. O vômito só atingiu parte do sapato. O menino segue seu caminho rindo de mim, enquanto sigo o meu desconcertado.

Não sei explicar a minha reação, continuei a caminhar. Em um primeiro momento olhei ao meu redor para ver se alguém tinha visto o “papel de besta” que tinha acabado de fazer. Em seguida veio a crise existencialista: depois de tantas “portas na cara” ainda recebo “vômito nos pés”? Por quê?

A reflexão só veio posteriormente. Como uma criança de no máximo oito anos já era portadora de tanta malícia? Ao ponto de vomitar e guardar o vômito na boca até que pudesse cuspi-lo em alguém? E mais, aproveitar-se de sua condição de criança para atrair a vítima.

De tudo se tiram lições né? “Nunca acene para criancinhas de olhos azuis que acenam para você no meio da rua, você nunca sabe o que elas querem cuspir em você!”

2 comentários:

Samuel Dias disse...

Ah, muito divertido, João!!
Eu lendo e imaginando a cena. Vc inocentemente acenando para a criança.
Só vc mesmo!!
Abraço!!

Vico disse...

Fantástico o relato! Valeu por me enviar o link, eu dei altas risadas lembrando agora com detalhes! Grande abraço, Deus te abençoe!

Postar um comentário